30 de agosto de 2014

Nonada nasce um escritor



Nonada, palavra inicial de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. A princípio nonada não faz sentido nenhum, mas para Guimarães poderia significar o mundo. E é assim que escritores fazem o seu caminho. Escrevemos palavras, sentimentos e pensamentos que a princípio só fazem sentido para nós. Depois vem o trabalho de lapidação e a escrita de um texto coerente, afinal preciso fazer sentido para os outros também.

Geralmente os escritores não escrevem apenas pra eles mesmos. Engana-se quem acha que o simples ato de escrever já traz uma satisfação plena. Escritores querem ser lidos, apreciados e compreendidos. Nós escrevemos para tentar deixar uma marca no mundo. Mostrar a todos o que entendemos sobre o que é viver e o que é ser feliz. Queremos deixar impresso no mundo a nossa necessidade de dizer o que nos fere e o que nos move.

Escritores trazem um mistério que os envolvem. As pessoas tendem a achar que os escritores são pessoas com poderes especiais. Um talento nato em que escrever as palavras se torna algo essencial e a história de um romance acontece como um passo de mágica.

O ato de escrever não é fácil e natural. Requer paciência, inspiração e muito treino. Escrever para o outro, na verdade, é difícil e por vezes doloroso. Afinal, ao escrever coloco junto do papel um pedaço da minha alma, um pedaço do que eu sou e do que entendo desse mundo. E aí que está paradoxo da história toda, nós queremos ser lidos, mas não queremos nos expor. Mas acabamos deixar escapar a nossa essência em cada texto e se entregar assim aos leitores requer coragem e desprendimento.

Nonada. Não é assim que um livro surge. Voltando ao nosso ilustríssimo Guimarães Rosa. Ser escritor às vezes não é uma opção. É que temos necessidade de escrever aquilo que nossa mente não consegue acalmar. Um personagem nasce no nosso imaginário e toma contorno. Em breve ele ganha vida própria, tem anseios, vontades e um jeito só seu de viver. E quem sou eu para não escutá-lo e não contar sua história?!

Se no meio do caminho um neologismo surgir, que culpa eu tenho se ele era essencial para construção do enredo. E de repente assim nasce um escritor, nasce uma história e ela acontece nonada.

Comente com o Facebook:

0 comentários:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...