8 de julho de 2015

Cartas Efêmeras #3 – Simplesmente me abrace


Belo Horizonte, 08 de julho de 2015
Queridos amigos,
Acordei sexta-feira bem cedinho, havia passado por uma noite turbulenta no hospital com a minha mãe, ela fez uma cirurgia recente e eu estou a acompanhando no processo de recuperação. Assim que o relógio marcou cinco horas da manhã a enfermeira entrou no quarto mais uma vez para aplicar uma leva de medicação. Sentei-me na cama ainda sonolenta, abri a persiana da janela e estava tudo escuro lá fora. Olhei para minha mãe que estava deitada naquela cama de hospital, tão frágil, tão diferente da mulher forte que eu conheço, me senti um pouco perdida na inversão dos papéis. Agora eu que tinha que ser forte para ela.
Desde aquele dia no hospital tenho estado ao lado dela, tirei uma semana de licença no trabalho para assumir os cuidados com a minha mãe, com meu pai, que também está passando por um processo de adoecimento, e da casa. E pela primeira vez na vida senti o peso da idade chegando, para mim e para os meus pais. Esses dias, imersa novamente no ambiente em que passei grande parte da minha infância, tenho retomado muitas lembranças de épocas em que a vida era mágica e um simples sábado à tarde no cinema era motivo de festa.
Quase todos os dias preciso sair de casa para comprar algo: um pão fresquinho para o café da tarde, um ingrediente que falta para o almoço ou somente ir nos Correios levar uma carta que precisava postar. Esses pequenos afazeres de uma vida doméstica foram excluídos da minha rotina insana da falta de tempo, só que eu não imaginava o quanto sentia falta disso. Sempre que possível, saio de casa para essas pequenas compras a pé. Tem feito um friozinho gostoso, me agasalho e saio passeando pelas ruas do meu antigo bairro.
É tão bom ver aquelas mesmas casinhas coloridas, as pessoas passeando pela rua com seus cachorros, as lojinhas do bairro abertas e rever rostos tão conhecidos. Assim que entro na rua que vai para a praça principal sempre tem uma senhora que gosta de ficar na sacada olhando o movimento da rua, vendo a vida passar. Passo em frente à igreja e sigo em direção a padaria. Essa falta de pressa tem um sabor gostoso e não entendo como pude esquecer como é bom desacelerar.
Nesses últimos dias também tenho sentido falta dos meus amigos de infância, éramos muitos por aqui. Minhas festas de aniversário sempre enchiam a casa de vizinhos e hoje quase não os vejo, muitos se mudaram e perdemos contato. Por coincidência uma amiga querida me ligou no fim da noite de ontem, já era a segunda vez que ela me ligava no dia e eu não conseguia atender. Assim que pude me sentar, retornei à ligação. Conversamos por pouco tempo, pois rapidamente minha mãe me chamava para ajudar com o banho, mas mesmo com apenas preciosos poucos minutos que tivemos ela terminou a ligação me dizendo “obrigada por me atender e me deixar desabafar”. Lembrei-me do quanto estou meio sumida das pessoas nos últimos tempos. Quando nos tornamos adultos a vida vai nos separando daqueles que julgávamos ser inseparáveis de nós.  
Tenho sentido as pessoas mais distantes de mim, de uma das outras e de si mesmas. Não sei o que anda acontecendo, mas quanto mais redes sociais virtuais nós temos para nos conectar, menos conectados pessoalmente e emocionalmente temos nos tornado. E foi no fim dessa terça-feira, já deitada na minha cama, aninhada nas cobertas chorei. Chorei de saudades, daquelas doídas, pensando em quanto sinto falta de pessoas especiais. Chorei pela distância em que nos encontramos, ora por culpa deles, ora por culpa minha.
Talvez eu esteja mais sensível nos últimos dias, talvez ficar submersa no mundo das recordações tenha me deixado mais nostálgica. Espero que os bons, novos e velhos amigos saibam que a minha distância não significa que não gosto mais de vocês, pelo contrário, o tempo só fortalece meus sentimentos e peço que quando me verem por aí, simplesmente me abracem, pois estou precisando desse carinho.
Abraços apertados, cheios de esperança de ver a vida de forma mágica, assim como era quando criança.
Nanda

Comente com o Facebook:

0 comentários:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...